Acidentologia

Em Portugal como como em todos os países ditos civilizados, após alguns feriados importantes, é comum encontrar nos meios de comunicação informações de uma contagem de mortos no trânsito digna de repugnância não só pela quantidade absurda, mas principalmente pela impressão de indiferença que já se estampou na opinião pública geral.
O primeiro acidente relatado de um veículo motorizado foi o do Le fardier de Cugnot. De acordo com inúmeros testemunhos e correspondências, este ocorreu em abril de 1770, sem que ninguém soubesse se era em Paris ou em Vanves. O engenho, pouco maniavel (mas também não rápido) abalou uma parede como resultado de "uma curva mal negociada". Sua velocidade foi estimada em 4 km/h, não houve feridos, mas o dispositivo foi destruído no choque. Mesmo que a data exata e o local mudem, a história oficial retém que uma grande soma de 20 000 libras foi alocada a Cugnot e Gribeauval para que eles pudessem reconstruir um novo veículo, provando a sua destruição acidental.

O adágio popular de que “coisas ruins só acontecem aos outros” está mais que impregnado na consciência da população brasileira, se não, as informações de mortes no trânsito serviriam de alerta e fariam com que as pessoas fossem mais cautelosas e prudentes ao dirigirem seus veículos tanto nos centros urbanos como nas estradas. Será que pessoas não se importam com números de mortos catastróficos? Parece que só quem perdeu alguém no trânsito é que se importa com tal tipo de dado. Isso porque os números continuam assustadores e, com certeza, dificilmente as novas vítimas estão incluídas entre os familiares de acidentes anteriores.

Falta às pessoas o conhecimento de que um carro em alta velocidade pode causar a morte de sua família ou de outros? Ou será que o conceito de causar morte e sofrimentos está tão banalizado ao ponto que o comportamento no trânsito irresponsável justifica o egoísmo do secularismo moderno? Como se admite isso em civilizações modernas que se auto-proclamam evoluídas e progressistas? Se os adventos das guerras, considerados bárbaros para as civilizações, devem tender a se extinguirem, instrumentos da modernidade como os automóveis, ao invés de matar, não deveriam, como pretendem, facilitar a vida das pessoas? É o paradoxo da vida moderna e do conceito da proposta civilizatória.

Pode se entender a civilização como o estágio mais avançado de determinada sociedade humana, caracterizada basicamente pela sua fixação ao solo mediante construção de cidades, daí o termo derivar do latim civita que designa cidade e civile (civil) o seu habitante. Num sentido mais amplo, a civilização designa toda uma cultura de determinado povo e o acervo de seus característicos sociais, científicos, políticos, económicos e artísticos próprios e distintos.

Assim, a civilização é um processo social em si, inerente aos agrupamentos humanos que tendem sempre a evoluir com a variação das disponibilidades económicas. Logo, retornando à reflexão inicial, como explicar que em uma sociedade civilizada como a maioria das civilizações atuais incluindo a brasileira, não se dê valor à vida humana e, especificamente, não se tenha cuidado com a vida na malha viária?

No Brasil

Para reforçar esta preocupação, vejam-se alguns números. Segundo o CESVI (Centro de Estudos Automotivos), de 2002 a 2008 morreram no Brasil 247.430 pessoas em acidentes de trânsito. Só em 2008 morreram mais de 37 mil pessoas, numa razão de 102 pessoas por dia e de 5 vítimas por hora. São dados alarmantes, mas sem nenhum exagero. Ainda assim, esses números são superiores a outro absurdo civilizado. O Brasil mata mais pessoas no trânsito do que morrem pessoas na guerra dos EUA contra o Iraque que de 2003 a 2009 perderam 109.000 soldados, o que dá um dado de 18 mil mortes por ano “apenas”.

Em Portugal

Os acidentes rodoviários ocorridos durante o ano 2010 resultaram na morte de, pelo menos, 953 vítimas

O número resulta do somatório dos 140 mortos registados pela PSP (apenas no local do acidente) e dos 813 contabilizados pelos núcleos de investigação criminal (NIC) dos destacamentos de trânsito, incluindo já vítimas de acidentes ocorridos até ao final de Dezembro 23009, que morreram no máximo 30 dias depois. Estes últimos dados foram divulgados por elementos da extinta Brigada de Trânsito (BT), a partir de um levantamento junto dos NIC dos destacamentos de trânsito.

Esta contabilidade mostra um aumento de 216 mortes face à estatística oficial relativa a 2009. Contudo, nesse ano os números eram contabilizados de outra forma, não sendo por isso totalmente comparáveis. Até ao final de 2009, a Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária (ANSR) só contava para as estatísticas as vítima de acidente cujo óbito tivesse ocorrido no local do sinistro ou no seu percurso até à unidade de saúde. A partir de 2010, as estatísticas incluem os que morreram até 30 dias após o acidente e devido a este. Portugal começa assim a respeitar uma regra comunitária que os países da União Europeia seguem há vários anos. Para que os números pudessem ser comparáveis aos dos parceiros europeus, que já contavam as mortes a 30 dias, as autoridades portuguesas aplicavam um agravamento de 14 por cento à estatística oficial. Os últimos dados da ANSR que já contabilizam as mortes a 30 dias e que se reportam a Junho de 2010 (estas estatísticas são publicadas com um atraso de seis meses) mostram que a realidade é mais pesada, que o ajustamento que foi feito no passado (os tais 14 por cento). Até Junho do ano 2009 morreram 327 pessoas em acidentes rodoviários (nas 24 horas seguintes) e mais 89, ou seja, 27 por cento, nos 30 dias seguintes, o que perfaz um total de 416 vítimas mortais.

Resto do Mundo

Para não deixar Portugal sozinho nesse contexto incivilizado é bom lembrar que na Índia morrem cerca de 105,7 mil no trânsito, na China são 96,6 mil, na Rússia são 35,9 mil, nos Estados Unidos foram 37.261 e toda a União Europeia atingiu o número de 34.500; são todos estes dados do ano de 2008 e de áreas semelhantes para que a comparação não pareça tão “injusta”.